segunda-feira, 23 de julho de 2007

Prá que isso?

Depois de alguns dias de descanso, eis-me aqui.

Estou triste, sabem. Diga-se de passagem, bastante. Por que estou assim? Porque pensava que o esporte fora criado para integrar os povos, construir o espírito de coletividade no cidadão, moldar um caráter e quando derrotado saber perder com dignidade. Sem partir para a violência ou ignorância, seja lá qual modalidade for.

Ontem assisti ao Gp da Europa de Fórmula 1, disputado na Alemanha, e achei emocionante a corrida no final, como há tempos não se via. O Felipe Massa perdeu a primeira posição para o Fernando Alonso quando faltavam cinco voltas para acabar a prova. A troca de posições entre eles aconteceu de forma aguerrida e houve um toque do Massa no carro do Alonso. Até ali tudo normal. Mas na opinião do espanhol não. Finalizado o grande prêmio, na área onde os pilotos se pesam e pegam os bonezinhos dos patrocinadores, antes de subirem ao pódio, Fernando Alonso e Felipe Massa iniciaram uma discussão para, literalmente, o mundo inteiro ver. Transmitida e captada ao vivo, em italiano. Alonso reclamando da forma como o brasileiro se comportara quando ele o ultrapassara e Felipe lhe dizendo: “Provi a imparare, provi a imparare, dai!” (Experimente aprender, experimente aprender, vai!), dando uns tapinhas bem irônicos nas costas do espanhol.
Não vou entrar no mérito se o Massa ou o Alonso está certo.
Só me decepcionei com a discussão.
Dois grandes pilotos, com um enorme talento, que pareciam crianças.
Lamentável e sem necessidade.

Terminado o bate-boca e a corrida, era a vez de acompanhar Brasil x Argentina, na final do Pan Rio 2007, no handebol masculino. É conhecida a rivalidade existente entre os dois paises, mas quando parte para a pancadaria, como acontecera no final, é de lastimar também. Eu não sabia se o que via era handebol ou vale-tudo. O Brasil venceu 30 a 22, mas ficou um clima pesado no ar. Meio azedo até. Pelo menos para mim.

E a última do dia foi no judô. Existe a luta no tatame, sim. Mas acho que a torcida estava tão contaminada com o dia de confusão e arranca-rabo, que quis participar de alguma forma e a escolhida foi: lançamento de papéis e copinhos contra o árbitro da luta entre a brasileira Érika Miranda e a cubana Sheila Espinosa. O árbitro errou? Isso vai do ponto de vista de cada um e não justifica a zorra ocorrida. Mais uma vez o destaque foi o lado da discórdia.

Aí penso e concluo que ninguém quer perder, incluindo o público – uma conclusão um tanto óbvia, é verdade. Aliás, perdem, sim. Mas questionam ou partem para a estupidez, deixando de lado o espírito esportivo, o respeito pelo atleta, companheiro de profissão e, acima de tudo, pelo ser humano, suscetível a cometer erros!

Louvados sejam Thiago Pereira, César Cielo, Kaio Márcio e outros tantos esportistas conhecedores do real espírito do esporte: treinar, batalhar e vencer os adversários, dando exemplo que os verdadeiros campeões são os que brigam e superam os seus próprios limites. E por isso retifico o que eu escrevi no início deste texto.

Eu não pensava que o esporte fora criado para integrar os povos, construir o espírito de coletividade no cidadão, moldar um caráter e quando derrotado saber perder com dignidade. Sem partir para a violência ou ignorância, seja lá qual modalidade for.

Eu penso e tenho certeza que fora criado com esse intuito.
Pobre daqueles que acham o contrário.

2 comentários:

Anônimo disse...

Foi um domingo nervoso este do Pan. Mas nervosos estavam os outros. O handebol da Argentina surtou? Apenas exerceu seu "jus sperneandi" diante da nítida superioridade brasileira.

Coisa bem diferente foi a inaptidão do árbitro do judô. Arbitragem não é baseada em subjetividade. Uma decisão de Panamericano foi uma responsabilidade grande demais para aquele árbitro, que errou feio, porque errou ao longo de toda a luta.

Já a torcida não fez nada de mais, nem contra a atleta, nem contra o técnico, nem contra o corpo de árbitros. Copinhos e papéis não machucam ninguém, exceto o orgulho - foi tudo simbólico. Fora o barraco entre a Regla Torres (só podia!), o Aurélio Miguel e adjacências, de resto foi tudo dentro do direito da torcida: vaiar, virar de costas e cantar o hino brasileiro enquanto se executava o cubano.

Os comentaristas - todos: Sportv, ESPN, Record, etc. - fizeram um monte de justificativas, criticaram a briga nas arquibancadas, falaram do espírito esportivo, julgaram as ações da torcida, mas não vi ninguém repetir a palavra mais verdadeira pronunciada ali, que foi da técnica brasileira, em referência à bizarrice cometida pelo árbitro: "palhaçada". Se não é mais legítimo se revoltar contra uma atitude injusta, então tudo é permitido. Há uma mania recorrente de argumentar como se uma coisa excluísse a outra. Por exemplo, dizer que a torcida se manifesta com paixão. E daí? É incompatível se manifestar COM paixão e SEM razão? Alguém não pode estar emocionado e certo ao mesmo tempo?

E lamento destruir sua inocência, mas faz tempo que Copa do Mundo, Olímpiadas e Panamericanos se tornaram espetáculos midiáticos, que de quebra mostram algum esporte.

Guto M disse...

J, concordo em partes com você. E claro, respeito a tua opinião.

Mas vou expor o que penso a respeito do que vem ocorrendo em algumas competições no Pan Rio 2007.

Realmente o que a Argentina fez, arrumando toda aquela confusão, foi criar um outro fato dentro da partida já perdida por eles e deixar um clima ruim no ar. Aconteceria aqui, em Londres, Paris, Roma, Lisboa etc. Porque eram Brasil e Argentina em quadra. Porém a minha inocência é com relação à violência.
Isso, eu não aceito.

No judô e com toda a confusão ocorrida, penso o seguinte: é revoltante ver o árbitro errar? Ô se é! No judô, futebol, basquete, vôlei, handebol... Ainda mais em uma competição disputada no Brasil, com brasileiros nas arquibancadas e que pagaram preços bem salgados para ali estarem.

Mas o fato: o Brasil está pleiteando a organização de uma Olimpíada e uma Copa do Mundo, certo? Aí nossos torcedores jogam copinhos e papéis. Por mais que seja um gesto simbólico, para mim, é falta de respeito e está a um fio de distância para descambar para a violência. E nas competições de ginástica e atletismo? As vaias para os atletas estrangeiros em momentos decisivos, tentando desconcentrá-los? Sei que não é jogo de tênis, onde há um silêncio praticamente total, mas é, de novo, falta de respeito.

Agora peguemos a China, que vai receber as Olimpíadas ano que vem. Lá, os chineses têm costume de cuspir no chão. É um costume. O que estão fazendo? Para não causar mal-estar com os visitantes, o governo chinês está fazendo campanhas para que, durante os jogos, não façam isso. Respeito aos estrangeiros.

Pode-se estar com a emoção e com a razão, mas eu penso que o respeito e a educação também devem estar presentes. Ainda mais para um país que pretender receber as Olimpíadas e a Copa.

E só assino embaixo quando você diz que as grandes competições esportivas se tornaram espetáculos midiáticos. Afinal, o que manda é o capitalismo.

Abraço e obrigado pelo comentário, J.